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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Quaresma: Porque não joga mais?



Duas ações de Quaresma em jogos de máxima importância reabriram a discussão, que na verdade nunca chegou a estar fechada: por que não joga mais?

Na seleção, saiu do pé direito o cruzamento perfeito para o golo de Cristiano Ronaldo, na Dinamarca.
Na Liga dos Campeões o extremo portista apanhou uma bola sobre a esquerda, tirou da frente um adversário e rematou forte, para o 2-1 do FC Porto perante o At. Bilbao. Um remate que valeu milhares de euros e provavelmente a qualificação tranquila para os oitavos de final da Champions.

No Dragão, Quaresma esteve 22 minutos em campo (entrou aos 70, para o lugar de Casemiro) e fez exatamente isto:

72: perde a bola de cabeça
74: ganha na esquerda e cruza já para além da linha de fundo
75: golo
77: toca para Brahimi
78: cruzamento-remate da esquerda, a bola sai ao lado
83: corta de cabeça
85: ganha um lance junto à lateral, agora na direita
87: fecha bem à frente de Danilo e alivia uma bola junto à área do FC Porto, evitando um lance que poderia ser de perigo
90: corta um cruzamento da esquerda do At. Bilbao, permitindo que a bola chegue a Fabiano, tranquila
90: faz falta na direita, junto à linha lateral, e envolve-se numa confusão (controlada...) com adversários

Além do golo, Quaresma fez mais um remate e dois bons cortes, muito importantes para a equipa.
Tudo somado, foram 22 minutos equilibrados, a pensar no conjunto e com um lance inteligente que deu golo. Grande parte do mérito naquela ação foi de Brahimi, que percebeu a péssima colocação dos adversários e colocou no extremo português. Mas é evidente que a colocação e força do remate de Quaresma ajudaram muito.

Voltando à pergunta, por que não joga mais este Quaresma?

Aos 31 anos, Quaresma levanta uma dúvida interessante: servirá a partir de agora como arma secreta eficaz? No regresso à seleção nacional, entrou para marcar de penálti em França e assistiu Cristiano Ronaldo na Dinamarca. Uma semana mais tarde, o golo da vitória na Liga dos Campeões. 
A idade avança e, atendendo às caraterísticas do jogador, poderia justificar a mudança de paradigma – comum entre atletas mais experientes -, olhando para Ricardo Quaresma como um elemento para sair do banco e causar desequilíbrios. Julen Lopetegui tem olhado para o português dessa forma: em 13 compromissos do FC Porto, 11 presenças na ficha de jogo mas apenas 4 aparições no onze. De resto, 3 jogos como suplente utilizado e 4 sem entrar em campo. Cenário pouco habitual na carreira do jogador. Paulo Bento, por exemplo, parecia encarar Ricardo Quaresma como um elemento sem a atitude correta para se assumir como um bom suplente. O extremo admitiu, de resto, após a vitória frente ao At. Bilbao, que não gosta de ficar no banco. Tinha deixado essa ideia no ar em Lille, mas garantiu que eram apenas «filmes». Ele, Lopetegui e Pinto da Costa. 
Haverá espaço para uma reflexão mais profunda se este cenário no FC Porto não se inverter, mas fica um dado relevante para lançar a discussão: nesta terça-feira, aconteceu o que nunca tinha acontecido na carreira de jogador.
Ricardo Quaresma marcou o primeiro golo decisivo como suplente utilizado. Analisando a sua carreira desde 2001, quando fez a estreia com a camisola do Sporting, percebe-se que o extremo já fez jogos suficientes a partir do banco – 90, contabilizado o duelo com o At. Bilbao – sem se assumir como um elemento fundamental nessa condição.
O internacional português apontou o 8º golo como suplente mas nunca com o peso daquele remate certeiro na Liga dos Campeões. Sintomático. 

Estamos perante um novo Ricardo Quaresma?

Quaresma passou por sete clubes ao longo da sua carreira profissional e habituou-se ao estatuto de titular, sobretudo no futebol português. São perto de 400 jogos no onze e bem menos no banco:  90 como suplente utilizado, 35 jogos sem entrar.
Tudo começou…frente ao FC Porto. Com apenas 17 anos, fez a sua estreia pelo Sporting a partir do banco de suplentes. Nessa temporada 2001/02, aliás, andou mais por lá que no onze.  Algo que só voltou a acontecer em Barcelona, duas épocas mais tarde (14 jogos como titular, 14 como suplente utilizado, 1 sem entrar).
Ricardo Quaresma regressou a Portugal para vestir a camisola do FC Porto, como peça importante na engrenagem, mas voltou a sentir dificuldades fora do país.
José Mourinho, de resto, foi o treinador que mais vezes deixou o extremo luso no banco de suplentes. Na temporada 2009/10, por exemplo, foram 17 jogos por ali e sem entrar. Um recorde pessoal. Com Scolari, no Chelsea, um cenário ligeiramente melhor. Seguiram-se Besiktas (Turquia) e Al Ahli (Emirados Árabes Unidos), antes de um resgate saudado pelos adeptos do FC Porto.
Neste arranque de temporada, com Julen Lopetegui, Ricardo Quaresma sente o que raramente sentiu no seu país: não tem sido encarado como um candidato natural ao onze. Mas poderá o extremo reinventar-se como um bom suplente, marcando golos decisivos como aconteceu frente ao At. Bilbao? O futuro dirá. Os sete golos anteriores, saindo do banco, não tiveram o mesmo impacto no resultado final.
Golos de Ricardo Quaresma como suplente:

Salgueiros-Sporting, 1-5: 5 novembro 2001
A curiosidade: o primeiro golo de Ricardo Quaresma ao mais alto nível foi apontado num jogo em que saiu do banco de suplentes, em Vidal Pinheiro. O Sporting já vencia por uma margem confortável (1-4), o jovem entrou ao minuto 83 e estabeleceu o resultado final pouco depois, com estilo. 
porting-Belenenses, 2-0: 20 de outubro de 2002
Os leões já venciam por 1-0, graças a João Vieira Pinto. Boloni lança Quaresma a um quarto-de-hora do final da partida e este respondeu com o golo da tranquilidade, à entrada para o período de descontos.

Valência-FC Porto, 2-1: 27 de agosto de 2004
Jogo da Supertaça Europeia, com Victor Fernández. O técnico deixa Quaresma no banco de suplentes e este é chamado quando o Valência vence por 1-0, mas os espanhóis marcam o segundo logo depois. O português marca o tento de honra, um golaço sem efeitos práticos. 
FC Porto-Rio Ave, 3-0: 10 de setembro de 2005
3ª jornada da Liga, com Co Adriaanse. O FC Porto não conseguia desfazer o nulo e o técnico holandês lança três homens: primeiro Alan, depois Hugo Almeida, finalmente Ricardo Quaresma. O extremo português marca o primeiro ao minuto 87 mas os outros dois suplentes fazem o mesmo nos descontos, construindo um resultado enganador. 

FC Porto-D. Aves, 2-0 para Taça, 19 de janeiro de 2008
Taça de Portugal, 5ª eliminatória. Jesualdo Ferreira roda a equipa e apresenta um onze alternativo, com Ernesto Farías a inaugurar a contagem ao minuto 31. Quaresma é o primeiro a entrar, a meia-hora do final, e balança as redes no período de descontos.

Besiktas-Manisaspor, 4-1: 19 de março de 2012
Hugo Almeida tinha aberto as hostilidades ao 18º minuto de jogo. Ricardo Quaresma salta do banco para marcar dois golos em apenas cinco minutos, Manuel Fernandes fecha as contas para o Besiktas. O tento de honra do Manisaspor chega no último lance do encontro. 

Dois anos e meio mais tarde, Quaresma volta a desequilibrar como suplente. Dá o exemplo na seleção nacional, com o golo em França e o cruzamento soberbo na Dinamarca. Regressa ao FC Porto, espera pela oportunidade reclamada e resolve o problema frente ao At. Bilbao. O futuro passará por esta nova realidade? 

Créditos: Luis Sobral e Vitor Hugo Alvarenga, jornalistas do maisfutebol.

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